quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Autobiografia de Ana Raquel Estalagem

Nasci na cidade de Paris, em 1742, filha de mãe francesa e de pai luso-francês.
A minha mãe, Estephanie, era uma senhora muito delicada e sossegada, sempre muito preocupada com os seus filhos. Era natural de Marseille e conheceu o meu pai, Luís, quando este foi a França, em negócios. A partir daí, o meu pai nunca mais voltou a Portugal e casaram-se em Paris, onde estabeleceram a sua morada e onde nasci eu e os meus três irmãos, todos mais velhos do que eu. A nossa família era estável em termos financeiros, especialmente devido aos negócios de madeira que o meu pai continuava a efectuar.
O primeiro filho do casal, Jacques, era o meu irmão preferido, pois sempre foi ele que me protegeu. Dedicou-se à farmácia, o que pouco agradou quer ao meu pai quer à minha mãe.
A segunda filha chamava-se Rennée. Morreu prematuramente, com quinze anos quando se afogou nas praias de Riviera.
O meu último irmão, Phillipe, dedicou-se a explorar o mundo, navegando, e penso que ficou num dos lugares que descobriu, pois nunca voltou a casa.
Eu, como quarta filha, quis seguir o exemplo de Phillipe, mas sempre com o obstáculo de ser mulher, pois tomam-se as mulheres como inexperientes a bordo de um barco. Por outro lado, este tipo de profissão não era bem visto se realizado por uma rapariga. O meu pai sempre quis dar-me educação, para que tivesse sucesso e pudesse trazer dinheiro para as necessidades da família, uma vez que ele tinha deixado de trabalhar, devido a uma doença prolongada.
Pouco tempo depois, conheci um rapaz que ia para Inglaterra em busca de oportunidades de emprego. Não hesitei. Parti com ele, fugi da vida que tinha estabelecido em Paris. Cedo percebemos que não tínhamos os mesmos objectivos. Ele queria ser negociante, queria ser reconhecido e ter uma carreira com sucesso. Eu não. Eu apenas queria a liberdade de que ouvira o meu irmão Phillipe falar.
Por isso, a partir de um certo ponto continuei a minha viagem sozinha. Ao chegar a Inglaterra, dois anos depois, fui vista com maus olhos: as mulheres deviam ficar em casa e não aventurar-se no desconhecido. Mas eu não me importei...só queria navegar, explorar o mundo.
Numa noite de lua nova, entrei para um navio, cujo nome não consegui ler na escuridão. No dia seguinte, o comandante descobriu-me a dormir num convés. Expliquei-lhe por que motivo me encontrava ali e como lá tinha chegado e, para meu espanto, não me criticou. Elogiou o facto de ter chegado ali e disse-me que se tinha tido coragem para o fazer, com certeza também conseguiria embarcar numa viagem perigosa para a qual ele e a sua tripulação se preparavam.
É do convés que escrevo tudo isto, para que se alguma coisa correr mal possam explicar aos meus pais o que me aconteceu. Não vou escrever mais. O navio está a começar a navegar e eu vou cumprir o sonho para o qual sempre vivi.

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