quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Autobiografia de Robinson


Nasci na cidade de Iorque no ano de 1737, originário de uma boa família, mas estrangeira no país. O meu pai, natural de Brema, dedicou-se ao comércio em Hull, onde adquiriu uma fortuna muito confortável. Mais tarde, retirou-se dos negócios e foi viver para Iorque, onde se casou com minha mãe, que pertencia à família Robinson, uma das melhores do Condado. Daí deriva o meu nome, Robinson Kreutznaer, a seguir transformado por corrupção, muito corrente em Inglaterra, no de Crusoe, com o qual hoje se chama e se assina a minha família e eu próprio também. Os meus companheiros nunca me chamaram de outro modo.Tinha dois irmãos mais velhos do que eu: o primeiro, tenente-coronel de um regimento de infantaria inglesa em Flandres, comandado pelo célebre Luckart, morreu na batalha de Dunquerque, contra os espanhóis. Quanto ao segundo, sempre ignorei o que fora feito dele, e o seu destino ficou um enigma para mim, do mesmo modo que para os meus pais.Como eu era o terceiro varão da família, e não tinha qualquer profissão, imaginava mil castelos no ar. O meu pai, de idade avançada, tinha-me educado convenientemente, quer dando-me ele próprio algumas lições, quer enviando-me para uma escola fora do povoado. O seu intuito era fazer-me estudar leis, mas os meus planos eram muito diferentes. Dominado apenas pela ideia de navegar, resistia com força à vontade paterna e às súplicas de minha mãe.O meu pai, homem grave e discreto, não demorou a adivinhar os meus projectos, e deu-me excelentes conselhos para eu os abandonar. Uma manhã chamou-me ao seu quarto, onde se encontrava retido por um ataque de gota, e insistiu vivamente para que renunciasse às minhas ideias equívocas.Rogou-me, encarecidamente, com as palavras mais afectuosas, que procedesse com reflexão, sem me precipitar num acumular de desgraças. Disse-me que eu não tinha necessidade de ganhar a subsistência; que tinha feito planos para me apoiar convenientemente na profissão à qual me destinava; que se não chegasse a arranjar uma situação próspera seria por culpa minha ou da sorte, que depois de ter cumprido o seu dever, revelando-me os perigos a que me arrastariam as falsas ideias e os loucos empreendimentos, não era responsável por nada. Concluindo, recordou-me o exemplo do meu irmão, com o qual havia usado os mesmos argumentos para o dissuadir de entrar no exército de Flandres, onde tinha morrido.Sinceramente impressionado com um discurso tão terno, resolvi não mais pensar em viagens e estabelecer-me na minha terra natal, conforme os desejos de meu pai; mas, ai de mim!, este bom propósito passou como um relâmpago: tornei às minhas antigas ideias, e para evitar daí em diante as que eu julgava serem inoportunidades do meu pai, procurei afastar-me sem sua licença. Apesar de tudo, não levei isso a cabo com tanta precipitação como a que sentia arrastar-me. Um dia em que a minha mãe parecia estar mais alegre do que de costume, disse-lhe, chamando-a à parte, que a minha paixão de ver o mundo era tão irresistível que se me tornara impossível empreender qualquer carreira e levá-la a cabo, e que o meu pai procederia com mais siso se me desse a sua autorização do que obrigando-me a tomá-la. Fiz-lhe ver que devia considerar que eu já tinha dezoito anos, idade muito avançada para começar uma profissão ou uma carreira como a de advogado e que estava certo de que, se o fizesse, nunca terminaria. Acrescentei que se quisesse interceder por mim junto do meu pai e obter dele licença para eu fazer uma viagem por mar, desde já prometia que no regresso, no caso de não me adaptar àquela vida errante, renunciaria a ela e recuperaria o tempo perdido, a partir desse instante, duplicando o meu trabalho.A minha mãe sentiu-se muito incomodada com estas palavras. Disse-me que seria tempo perdido falar com o meu pai sobre tal assunto; que conhecia bem de mais os meus verdadeiros interesses para dar consentimento a um projecto tão disparatado; que não entendia como é que eu podia pensar em semelhante coisa depois da conversa que tivera com o meu pai; e que, se eu me queria perder, não havia remédio para mim; mas que tão-pouco me prestaria o seu apoio, quer directa, quer indirectamente, não desejando contribuir para a minha ruína, e, finalmente, que nunca se poderia dizer que a minha mãe tinha aprovado uma coisa que o meu pai tinha repudiado.

Quatro anos passaram… E neste que poderia ser um belo dia de Setembro, já com vinte e dois anos e a responsabilidade de sustentar uma mulher e dois filhos, arrependo-me profundamente de não ter levado mais a sério as palavras dos meus pais, que entendo hoje terem sido proféticas. Estou nesta ilha deserta, já em segurança, mas ainda preso na inquieta felicidade de me ter livrado da morte. Não vejo os meus companheiros. Terá algum sobrevivido?

Adaptado de Robinson Crusoe, de Daniel Dafoe. Tradução de M. Henriques, edições Círculo de Leitores.


Texto de Robinson.

1 comentário:

Escritor em ascenção disse...
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